Cojira-DF divulga Caderno de Pautas para fomentar cobertura sobre igualdade racial

Em razão das comemorações do mês da consciência negra, celebrado em novembro, a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Distrito Federal (Cojira-DF), decidiu por elaborar e divulgar um produto, por nós denominado Caderno de Pautas e Fontes “16 Ideias”, com o intuito de fomentar, subsidiar e instigar coberturas jornalísticas que digam respeito ao tema igualdade racial. 

O caderno foi enviado para editores e jornalistas do Distrito Federal, na última sexta-feira (11/11), um dia após a sanção pela presidente Dilma Roussef da Lei 12.519, que institui, o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, a ser comemorado, anualmente, no dia 20 de novembro, data do falecimento do líder negro Zumbi dos Palmares. 

Clique aqui para acessar o Caderno de Pautas e Fontes “16 Ideias”.

Conceiçao Freitas, do Correio Braziliense, escreve sobre racismo


Conceição Freitas, foi painelista no Seminário Imprensa e Relações Raciais promovido pela Cojira-DF e pelo Fórum de Assessores de Imprensa da Câmara Legislativa do DF, que aconteceu ontem (06/06) em Brasília.

Antes de vir pra cá (para o Seminário Imprensa e Relações Raciais) , li a notícia de que o monumento a Zumbi dos Palmares, no Rio de Janeiro, foi pintado de branco e, na base da escultura, foi escrito: “invasores malditos” e “fora, macacos.” Havia uma suástica.

Eu não sabia que era assim, que o racismo era a maior das feridas brasileiras. Durante muito tempo fui filha, neta e bisneta da ideia de que o Brasil era uma democracia racial. Eu, que sou filha, neta e bisneta de negros, índios e portugueses, durante muito tempo me recusei a tirar a casca da ferida para avaliar a extensão do dano.

Entendo meu medo e o medo que os brasileiros temos de enfrentar as lacerações de nossas almas. O que não nos livra de, de um jeito ou de outro, cutucar a ferida.

Foi o que fiz no segundo semestre do ano passado. Interrompi 30 anos de jornalismo branco para me dedicar ao jornalismo negro. Foi mais difícil e ao mesmo tempo mais enriquecedor do que seria capaz de imaginar, caso tivesse parado para tentar prever como seria a apuração da série de matérias.

Ao todo, foram publicados depoimentos em primeira pessoa de 13 brasilienses, de 16 a 70 anos — uma militante do movimento hip hop, um garoto do Caje, modelos gêmeas, um embaixador, uma estudante de um colégio de elite, uma mãe de santo, um empresário, um estudante universitário, uma professora da rede pública, um recenseador do Censo 2010, um juiz de direito, uma copeira.

Entrevistei outros personagens, tão ou mais interessantes que os publicados, mas tive de reduzir o número de entrevistados. Aprendi pra caramba com eles, com a dor e a delícia de ser negro. “Foi uma anunciação”, me disse uma professora ao relembrar o momento em que ela se descobriu negra. Aprendi, mais uma vez, quão diverso é o ser humano. Uma mesma dor que se anuncia de jeitos diferentes em cada pele.

Percebi que para o negro não há saída — ou ele veste a cor da pele, no corpo e na alma, ou ele passará pela vida como um zumbi, um fantasma de si mesmo, uma casquinha sem sorvete.

Percebi também o que eu estava perdendo, o que ainda continuo perdendo, desde que me desencantei da militância política, a deliciosa sensação de pertencimento, de fazer parte de um coletivo. É um conforto de acampamento de juventude, de excursão de escola. É quase uma experiência de comunhão religiosa.

O planeta Terra é hoje um imenso abrigo de órfãos de princípios, de ideias, de sonhos coletivos. Habitante desse deserto, fui irrigada naqueles meses de apuração das matérias por uma espécie de cosmogonia negra.

Não havia fundo falso nos relatos. Mesmo quando a conversa parecia que não ia render, que o personagem se recusava a tocar na ferida, ele mesmo em algum momento não se contentava com frases feitas e obviedades repetidas. Então, ele punha o dedo na dor e nesse instante surgia o personagem verdadeiro.

Uma colega de trabalho voltou recentemente de um curso para jornalistas na Alemanha. Ela ficou impressionada com o modo como professores, alemães, claro, tratavam do holocausto. De um jeito direito, crítico, corajoso. O mais vergonhoso capítulo da história recente não era apenas um detalhe no curso — um recurso cosmético para evitar que as visitas saíssem do país dizendo que eles não tocaram no assunto. Nada disso. Os alemães, aqueles do curso da minha amiga, pegaram o touro pelas unhas e disseram: sim, pisamos na bola e foi muito feio.

Os brasileiros ainda não criamos essa coragem para enfrentar o bicho de frente. E a imprensa, como fiel representante do establishment, do mesmo modo segue se achando filha, neta e bisneta de uma democracia racial. Eu finjo que não vejo, você finge que acredita e seguimos pisando em fundo falso.

Mas, nesses 30 anos de reportagem, foi a primeira vez que escrevi sobre preconceito racial e a primeira vez que fui convidada para falar sobre o tema. É um pequeno exemplo de como há um piso verdadeiro sendo construído, vagarosamente, sobre a terra brasileira.