Calvário invisível e transatlântico das mulheres negras

Por Dalila Negreiros* e Juliana Cézar Nunes**

“A trama põe em evidência um conjunto de violências e descasos do sistema de justiça e do sistema prisional com as mulheres. Um tema que ainda encontra dificuldade de acessar o debate social e o cinema. Daí a importância da película estar na faixa CPLP Audiovisual na programação da TV Brasil, com reprise neste sábado (20), às 23h30.”

A prisão como tema é recorrente na cinematografia. Em Hollywood, o fetiche parece ser em torno de fugas homéricas. No Brasil, filmes como Carandiru e “Como dois irmãos” cristalizaram uma imagem desse lugar que a sociedade escolhe não saber sobre. Mas é extremamente raro falar sobre mulheres presas. As histórias são ainda mais cobertas por silêncios e invisibilidade.

“O Calvário de Joceline” é um filme angolano ficcional inspirado em fatos reais e mostra que, entre Angola e Brasil, a estruturação do sistema prisional (mais uma das malditas heranças portuguesas e escravocratas) é bem parecida: permeada por injustiças, silêncios e pela presença de mulheres negras, inclusive grávidas ou no puerpério.

A obra apresenta Joceline, uma jovem com uma carreira de modelo promissora, que é envolvida em uma situação de assédio. O desdobrar da trama a faz encontrar com o General Barbosa, um homem assediador e violento, e Samy, uma mulher lésbica condenada por violência doméstica.

A trama põe em evidência um conjunto de violências e descasos do sistema de justiça e do sistema prisional com as mulheres. Um tema que ainda encontra dificuldade de acessar o debate social e o cinema. Daí a importância da película estar na faixa CPLP Audiovisual na programação da TV Brasil, com reprise neste sábado (20), às 23h30.

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O filme tem algumas limitações técnicas, de atuação e na construção da narrativa, mas chama a atenção um maniqueísmo nas personagens e mesmo uma expressão da violência entre pessoas presas como resultado da sua própria natureza e, não, de uma brutalização, que é também institucional e estruturada pelo racismo.

Especificamente sobre estereótipo, ao passo que é importante ter personagens lésbicas em um filme angolano, é também uma pena que seja a personagem menos humana da trama. Essa reificação contribui para a crença de que as mulheres são as responsáveis pelo próprio calvário.

Ainda assim, o filme suscita o interesse pelo livro do escritor angolano Lito Silva, lançado em 2011 e que inspirou a produção. Baseado em fatos reais, o livro e o filme fazem referência ao desabamento de uma unidade prisional feminina mal conservada e superlotada em Luanda.

Outra ponte entre Brasil e Angola, que nos faz refletir sobre a política de encarceramento de pessoas negras como mais uma face perversa e persistente do racismo de Estado. É a ficção nos ajudando a pensar a realidade.

* Dalila Negreiros é geógrafa e ativista do Nosso Coletivo Negro
** Juliana Cézar Nunes é jornalista e integrante da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-DF) e da irmandade Pretas Candangas

Reagimos ou seremos mortas

Os primeiros meses de 2014 mostraram-se fartos eImagemm casos de violência contra a população negra.  O mantra “não somos racistas” caiu definitivamente por terra. Perdemos a falsa inocência da democracia racial. Neste 21 de março, Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, a dúvida não é se o racismo existe. O desafio é pensar como ele se perpetua e de que forma pode ser efetivamente combatido. Precisamos refletir sobre como a sociedade brasileira consegue conviver com o racismo em sua pior face: as altas taxas de mortalidade entre pessoas negras.

A morte de Cláudia da Silva Ferreira, 38 anos, é a parte mais visível e não menos revoltante da violência contra as mulheres negras no Brasil. Moradora do Rio de Janeiro, a auxiliar de serviços gerais foi assassinada durante uma ação policial e chegou a ser arrastada pelas ruas na viatura de policiais que se ofereceram para “prestar socorro à vítima”. Deixou quatro filhos e quatro sobrinhos, uma vida de luta e sonhos e milhões de mulheres negras se perguntando: quem será a próxima?
O pedido de desculpa dos agentes do Estado é insuficiente diante do quadro de genocídio sistemático da população negra no Brasil. São mortes e violências cotidianas. Envolvem desde a agressão a atendentes de cinema, manicures e cobradoras de ônibus de Brasília até a tentativa de linchamento de jovens negros acorrentados em postes e prisões preventivas de homens negros inocentes no Rio de Janeiro.

O Brasil busca tornar-se referência no cenário internacional pela aplicação de políticas de ação afirmativas, como as cotas nas universidades, programas de financiamento estudantil, transferência de renda e combate à morte da juventude negra. Essas políticas, no entanto, precisam ser ampliadas para dar conta de um racismo que estruturou nossa sociedade a partir da escravidão e, após a abolição, tratou de manter a elite branca nos espaços de poder.

As contribuições da cultura africana permanecem praticamente invisíveis no ensino sobre a formação do país. Até o momento, os governos federal e distrital não foram capazes de fazer o mínimo: instituir o 20 de novembro como feriado de luta e celebração da história afro-brasileira. Enquanto isso, religiosos de matriz africana seguem sob ameaça. Templos são destruídos e queimados por agentes do Estado e grupos racistas.

Continuamos sub-representados nos meios de comunicação. Violentados em programas policiais e de humor. Destino de “elemento cor padrão” é silêncio, tortura e morte? Policial que atira em negro resistente tem permissão para matar? Fazendeiro e força armada que ocupa terra quilombola recebem prêmio e comenda? Não. Basta!

Reunidos com a presidente Dilma Rousseff na semana passada, representantes do movimento negro deram recado certeiro. Uma campanha contra o racismo no futebol, tendo em vista a realização da Copa do Mundo, é muito bem-vinda. No entanto, o combate à violência policial de Estado contra a população negra deve ser prioridade máxima. É preciso fortalecer institucionalmente o Programa Juventude Viva. O Legislativo contribuir, instituindo o fim dos autos de resistência, carta branca a policiais para matar jovens negros que supostamente resistem à prisão.

A exposição midiática, pela polícia, de jovens negros suspeitos deve cessar imediatamente. Corpos negros dilacerados precisam sair das capas dos jornais. A mídia alternativa e negra deve ter acesso aos recursos públicos de publicidade, para garantir outras imagens de nossa existência e espaço para reivindicações políticas.
A regularização de terras quilombolas precisa ser priorizada pelo governo como forma de garantir a sobrevivência e resistência das raízes da população negra. Interesses militares e agrícolas devem ser enfrentados, bem como tentativas de transferência para o Legislativo da autoridade para titular terras indígenas e quilombolas. Nossa história e nossos corpos não estão à venda.

Se os séculos de tráfico, escravidão e violência não podem ser compensados com dinheiro vivo, que sejam reparados com a garantia do acesso à terra, espaço dedicado não apenas a práticas de subsistência, como também de construção cultural afrocentrada de uma comunidade.

As cotas raciais nas universidades devem ser mantidas e ampliadas para os concursos públicos, editais e orçamentos. O governo deve se empenhar na regulamentação da PEC das Domésticas, como forma de garantir todos os direitos de boa parcela das trabalhadoras negras deste país, mulheres violadas de forma permanente e que devem ter acesso a uma política de saúde mais efetiva. Uma política de saúde da população negra há tempos é prometida e muito pouco foi efetivada. Centros de apoio e assistência psicossocial precisam ser criados para que o racismo possa ser tratado na sua dimensão cruel de adoecimento.

Reagimos ou seremos mortas. Esse é o lema de uma campanha liderada por coletivos negros de Salvador, que já chegou a ser considerada por governos incitação à violência. De que violência estamos falando? Daquela que nos mata todos os dias um pouco ou de uma só vez? Enquanto a sociedade, o governo e o Estado não cumprem integralmente seus deveres, cabe à população negra se organizar para reagir, reivindicar direitos e celebrar a trajetória de quem tombou no campo de batalha. Carolinas, Lélias, Beatrices e Cláudias. Elas vivem!

» JULIANA CÉZAR NUNES
Jornalista, mestre em comunicação social pela Universidade de Brasília, integra a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-DF) e o coletivo Pretas Candangas

» ISMÁLIA AFONSO
Jornalista e mestranda em gênero, sociedade e políticas da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso – Argentina)

* Artigo publicado no Correio Braziliense (21/03/2014) com o título Racismo é fato no Brasil.

** Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial: a data foi instituída, há 48 anos, pela Organização das Nações Unidas (ONU),  em homenagem às vítimas da chacina de Shaperville, na África do Sul.

“O Nascimento e a Trindade”

Por Sionei Ricardo Leão*

Foto divulgação

O Prêmio Abdias Nascimento realizado no início do mês de novembro, deste ano (2011), pela Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Rio de Janeiro (Cojira-RJ), simbolizou a união de três conceitos: igualdade racial, política sindical e jornalismo.

Pelas mãos dos membros da Cojira-RJ essa tríade se traduziu num resultado interessante e alvissareiro. Importante salientar que a depender das mãos que se propõem a costurar essas idéias, pode emergir um ogro um uma beldade. 

A sabedoria popular receita que a diferença entre o remédio e o veneno se dá pela dosagem escolhida pelo químico.

Na minha percepção, o que se viu no dia 7 de novembro foi a o resultado de uma empreitada audaciosa, inovadora e bem executada.

A Cojira-RJ com a atividade postula ingresso no clube das entidades que ousam avançar do nível da denúncia e o da reprodução de idéias e comportamentos ao seleto espaço dos que realizam.

Ou melhor, daqueles coletivos que têm auto-estima, coragem e foco suficientes para atravessar essa distância imensa: cruzar a via para andar na calçada dos que assumem riscos a fim de oferecer à sociedade projetos estruturantes. 

Conhecemos as reticências e avaliações negativas que ativistas e organizações de igualdade racial têm feito à grande imprensa brasileira. Isso tem ocorrido muito em razão de coberturas desfavoráveis a duas bandeiras estratégicas para essa militância, ou seja, a política de reserva de vagas para afrodescendentes em instituições de ensino superior (as cotas) e a questão fundiária do segmento quilombola.

O espaço da política sindical dos jornalistas também vinha sendo, em alguma medida, desdenhado por parte dessa mesma militância de igualdade racial. Em alguma medida por se entender que essa vertente, historicamente, foi terreno imberbe e lento para assimilar as demandas da luta anti-racismo.

A abertura de centrais sindicais e suas entidades filiadas, ao tema igualdade racial, convenhamos, é recente. 

Quando se trata do ambiente das redações a desconfiança não é menor. São muitos os editores refratários a pautas que tenham a ver com essa temática. 

É também comum o fenômeno de profissionais de imprensa afrodescendentes que evitam se envolver com essa causa por temerem que a imagem de militante os fragilize na disputa árida para se manter e prosperar na profissão. 

Há também no ambiente sindical do jornalismo uma prática no mínimo surpreendente. Por vezes dos deparamos com discursos e análises depreciativas a profissionais que atuam na grande imprensa, comentários motivados por visões ideológicas.  

Ocorre que ao menos, formalmente, os sindicatos foram criados para defender e não atacar jornalistas, a não ser que incorram em faltas éticas. 

A Cojira-RJ tinha essas e outras variáveis pelo caminho, ao decidir por realizar o Prêmio Abdias Nascimento. 

Para quem teve a oportunidade de assistir a premiação ficou a imagem de que a Cojira-RJ, habilmente, conseguiu dialogar com bom desempenho ante a tantos desafios.

O bom número de inscrições demonstrou que a ideia foi oportuna e tem vocação pela continuidade. A presença de tantos militantes “históricos”  foi outra vertente dessa adesão. 

A Cojira-RJ, igualmente, demonstrou maturidade ao convidar “estrelas” da grande imprensa como a jornalista Glória Maria e a colunista Flávia Oliveira, para ocuparem o palco da premiação.

Tanto Glória quanto Flávia são afrodescendentes que ocupam espaços importantes no jornalismo televisivo, mas que não são militantes “orgânicas” do Movimento Social Negro. A Cojra-RJ não cedeu a apelos sectários. 

Participar desse momento foi um privilégio e um alento por ver no Prêmio Abdias Nascimento o despertar de uma ação política que rompe barreiras e constrói novas etapas da luta pela igualdade racial.

Coincidem as três idéias do início do texto com a militância de três pessoas que são ícones da Cojira-RJ (sem qualquer desdém à importância de outros membros): Angélica Basthi, Miro Nunes e Sandra Martins. 

 *Sionei Ricardo Leão viajou, no dia 7 de novembro, à cidade do Rio de Janeiro, a convite da Cojira-RJ, para assistir a solenidade de entrega do Prêmio Abdias Nascimento.

Membros da Cojira-Df publicam ensaio na Revista da ABPN

O ensaio publicado por André Ricardo, Juliana Nunes e Sionei Leão, na Revistada ABPN v. 2, n. 4 • mar. 2011 – jun. 2011 • p. 223-228, faz uma análise sobre a trajetória do jornalismo brasileiro no que se refere à participação de profissionais afrodescendentes em vários momentos, a fim de demonstrar que negros participam dessa área do conhecimento desde o despertar da imprensa profissional brasileira. O artigo também faz reflexões a respeito das barreiras que comunidades quilombolas têm no acesso a instrumentos de comunicação, a exemplo, das rádios comunitárias. O texto resulta de tese elaborada para o Congresso dos Jornalistas Profissionais, realizado em 2008, em São Paulo.

Para ler clique aqui ou acesso o site da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN), www.abpn.org.br

Domingo é dia de Zumbi

Pela sexta vez, desde que foi instituido como Dia da Consciência Negra em 1971, a reverência a Zumbi dos Palmares acontecerá em um domingo.
Nesta quadragésima homenagem, as populações afrodescendentes do Planalto Central celebrarão os 316 anos de morte do herói negro em seis cidades satélites do Distrito Federal: Brazlandia, Ceilandia, Paronoá, São Sebastião e Sobradinho.

As atrações vão desde manifestações de comunidades tradicionais de terreiro e religiões de matriz africanas até atividades de esportes radicais como skate e programações tecno inspiradas nas festas blacks.

A comissão organizadora da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial do Distrito Federal – SEPIRDF estima que cerca de 20 mil pessoas transitem por tendas temáticas e áreas reservadas a shows musicais.

Locais: Ceilândia, Ginasio Desportivo de Ceilândia, Centro Cultural

Fonte: Sepir DF

Caderno de Pautas é tema na Rádio Nacional nesta segunda (21/11)

O Programa Espaço Arte, da Rádio Nacional, terá por pauta na próxima segunda-feira, às 17 horas, a repercussão do projeto “16 Ideias” – Caderno de Pautas e Fontes, elaborado pelos membros da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial do Distrito Federal (Cojira-DF).
O entrevistado será o jornalista Sionei Ricardo Leão, coordenador da Cojira-DF.
Em razão das comemorações do mês da consciência negra, celebrado em novembro, a Cojira-DF decidiu por elaborar e divulgar o Caderno de Pautas e Fontes “16 Ideias”, com o intuito de fomentar, subsidiar e instigar coberturas jornalísticas que digam respeito ao tema igualdade racial.
O produto contém 16 propostas de pautas e sugestões de nomes a serem entrevistados pelos jornalistas. Em todos os casos, o foco é a temática da igualdade racial. Há conteúdos na área da cultura, direitos humanos, internacional, esporte, educação, economia, mercado de trabalho e linguística.
O programa pode ser sintonizado na Rádio Nacional AM-980 ou pelo site da EBC, http://www.ebc.com.br.

Luiza Bairros fará pronunciamento no 20 de Novembro

A data foi recentemente instituída como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra pela presidenta Dilma Rousseff

A ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Luiza Bairros, fará um pronunciamento em rede nacional neste domingo – 20 de Novembro, entre 20h e 21h. A fala da ministra será sobre o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, instituído no dia 10 deste mês, pela presidenta da República, Dilma Rousseff, através da Lei 12.519. A sanção da Lei oficializa uma iniciativa bem-sucedida dos movimentos sociais negros, iniciada em meados dos anos mil novecentos e setenta.

Hoje, incorporado ao calendário das escolas e de muitas outras instituições públicas e privadas, o 20 de Novembro destaca-se como um evento cívico vibrante e de grande participação popular.

O Dia Nacional da Consciência Negra já é celebrado em 20 de Novembro e é dedicado à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. Apesar do ponto alto da celebração coincidir com o dia da morte de Zumbi dos Palmares, a cada ano as atividades alusivas à data são expandidas ao longo do mês, ampliando os espaços dedicados à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade.

Fonte: http://www.seppir.gov.br