Reagimos ou seremos mortas

Os primeiros meses de 2014 mostraram-se fartos eImagemm casos de violência contra a população negra.  O mantra “não somos racistas” caiu definitivamente por terra. Perdemos a falsa inocência da democracia racial. Neste 21 de março, Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, a dúvida não é se o racismo existe. O desafio é pensar como ele se perpetua e de que forma pode ser efetivamente combatido. Precisamos refletir sobre como a sociedade brasileira consegue conviver com o racismo em sua pior face: as altas taxas de mortalidade entre pessoas negras.

A morte de Cláudia da Silva Ferreira, 38 anos, é a parte mais visível e não menos revoltante da violência contra as mulheres negras no Brasil. Moradora do Rio de Janeiro, a auxiliar de serviços gerais foi assassinada durante uma ação policial e chegou a ser arrastada pelas ruas na viatura de policiais que se ofereceram para “prestar socorro à vítima”. Deixou quatro filhos e quatro sobrinhos, uma vida de luta e sonhos e milhões de mulheres negras se perguntando: quem será a próxima?
O pedido de desculpa dos agentes do Estado é insuficiente diante do quadro de genocídio sistemático da população negra no Brasil. São mortes e violências cotidianas. Envolvem desde a agressão a atendentes de cinema, manicures e cobradoras de ônibus de Brasília até a tentativa de linchamento de jovens negros acorrentados em postes e prisões preventivas de homens negros inocentes no Rio de Janeiro.

O Brasil busca tornar-se referência no cenário internacional pela aplicação de políticas de ação afirmativas, como as cotas nas universidades, programas de financiamento estudantil, transferência de renda e combate à morte da juventude negra. Essas políticas, no entanto, precisam ser ampliadas para dar conta de um racismo que estruturou nossa sociedade a partir da escravidão e, após a abolição, tratou de manter a elite branca nos espaços de poder.

As contribuições da cultura africana permanecem praticamente invisíveis no ensino sobre a formação do país. Até o momento, os governos federal e distrital não foram capazes de fazer o mínimo: instituir o 20 de novembro como feriado de luta e celebração da história afro-brasileira. Enquanto isso, religiosos de matriz africana seguem sob ameaça. Templos são destruídos e queimados por agentes do Estado e grupos racistas.

Continuamos sub-representados nos meios de comunicação. Violentados em programas policiais e de humor. Destino de “elemento cor padrão” é silêncio, tortura e morte? Policial que atira em negro resistente tem permissão para matar? Fazendeiro e força armada que ocupa terra quilombola recebem prêmio e comenda? Não. Basta!

Reunidos com a presidente Dilma Rousseff na semana passada, representantes do movimento negro deram recado certeiro. Uma campanha contra o racismo no futebol, tendo em vista a realização da Copa do Mundo, é muito bem-vinda. No entanto, o combate à violência policial de Estado contra a população negra deve ser prioridade máxima. É preciso fortalecer institucionalmente o Programa Juventude Viva. O Legislativo contribuir, instituindo o fim dos autos de resistência, carta branca a policiais para matar jovens negros que supostamente resistem à prisão.

A exposição midiática, pela polícia, de jovens negros suspeitos deve cessar imediatamente. Corpos negros dilacerados precisam sair das capas dos jornais. A mídia alternativa e negra deve ter acesso aos recursos públicos de publicidade, para garantir outras imagens de nossa existência e espaço para reivindicações políticas.
A regularização de terras quilombolas precisa ser priorizada pelo governo como forma de garantir a sobrevivência e resistência das raízes da população negra. Interesses militares e agrícolas devem ser enfrentados, bem como tentativas de transferência para o Legislativo da autoridade para titular terras indígenas e quilombolas. Nossa história e nossos corpos não estão à venda.

Se os séculos de tráfico, escravidão e violência não podem ser compensados com dinheiro vivo, que sejam reparados com a garantia do acesso à terra, espaço dedicado não apenas a práticas de subsistência, como também de construção cultural afrocentrada de uma comunidade.

As cotas raciais nas universidades devem ser mantidas e ampliadas para os concursos públicos, editais e orçamentos. O governo deve se empenhar na regulamentação da PEC das Domésticas, como forma de garantir todos os direitos de boa parcela das trabalhadoras negras deste país, mulheres violadas de forma permanente e que devem ter acesso a uma política de saúde mais efetiva. Uma política de saúde da população negra há tempos é prometida e muito pouco foi efetivada. Centros de apoio e assistência psicossocial precisam ser criados para que o racismo possa ser tratado na sua dimensão cruel de adoecimento.

Reagimos ou seremos mortas. Esse é o lema de uma campanha liderada por coletivos negros de Salvador, que já chegou a ser considerada por governos incitação à violência. De que violência estamos falando? Daquela que nos mata todos os dias um pouco ou de uma só vez? Enquanto a sociedade, o governo e o Estado não cumprem integralmente seus deveres, cabe à população negra se organizar para reagir, reivindicar direitos e celebrar a trajetória de quem tombou no campo de batalha. Carolinas, Lélias, Beatrices e Cláudias. Elas vivem!

» JULIANA CÉZAR NUNES
Jornalista, mestre em comunicação social pela Universidade de Brasília, integra a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-DF) e o coletivo Pretas Candangas

» ISMÁLIA AFONSO
Jornalista e mestranda em gênero, sociedade e políticas da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso – Argentina)

* Artigo publicado no Correio Braziliense (21/03/2014) com o título Racismo é fato no Brasil.

** Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial: a data foi instituída, há 48 anos, pela Organização das Nações Unidas (ONU),  em homenagem às vítimas da chacina de Shaperville, na África do Sul.

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Conceiçao Freitas, do Correio Braziliense, escreve sobre racismo


Conceição Freitas, foi painelista no Seminário Imprensa e Relações Raciais promovido pela Cojira-DF e pelo Fórum de Assessores de Imprensa da Câmara Legislativa do DF, que aconteceu ontem (06/06) em Brasília.

Antes de vir pra cá (para o Seminário Imprensa e Relações Raciais) , li a notícia de que o monumento a Zumbi dos Palmares, no Rio de Janeiro, foi pintado de branco e, na base da escultura, foi escrito: “invasores malditos” e “fora, macacos.” Havia uma suástica.

Eu não sabia que era assim, que o racismo era a maior das feridas brasileiras. Durante muito tempo fui filha, neta e bisneta da ideia de que o Brasil era uma democracia racial. Eu, que sou filha, neta e bisneta de negros, índios e portugueses, durante muito tempo me recusei a tirar a casca da ferida para avaliar a extensão do dano.

Entendo meu medo e o medo que os brasileiros temos de enfrentar as lacerações de nossas almas. O que não nos livra de, de um jeito ou de outro, cutucar a ferida.

Foi o que fiz no segundo semestre do ano passado. Interrompi 30 anos de jornalismo branco para me dedicar ao jornalismo negro. Foi mais difícil e ao mesmo tempo mais enriquecedor do que seria capaz de imaginar, caso tivesse parado para tentar prever como seria a apuração da série de matérias.

Ao todo, foram publicados depoimentos em primeira pessoa de 13 brasilienses, de 16 a 70 anos — uma militante do movimento hip hop, um garoto do Caje, modelos gêmeas, um embaixador, uma estudante de um colégio de elite, uma mãe de santo, um empresário, um estudante universitário, uma professora da rede pública, um recenseador do Censo 2010, um juiz de direito, uma copeira.

Entrevistei outros personagens, tão ou mais interessantes que os publicados, mas tive de reduzir o número de entrevistados. Aprendi pra caramba com eles, com a dor e a delícia de ser negro. “Foi uma anunciação”, me disse uma professora ao relembrar o momento em que ela se descobriu negra. Aprendi, mais uma vez, quão diverso é o ser humano. Uma mesma dor que se anuncia de jeitos diferentes em cada pele.

Percebi que para o negro não há saída — ou ele veste a cor da pele, no corpo e na alma, ou ele passará pela vida como um zumbi, um fantasma de si mesmo, uma casquinha sem sorvete.

Percebi também o que eu estava perdendo, o que ainda continuo perdendo, desde que me desencantei da militância política, a deliciosa sensação de pertencimento, de fazer parte de um coletivo. É um conforto de acampamento de juventude, de excursão de escola. É quase uma experiência de comunhão religiosa.

O planeta Terra é hoje um imenso abrigo de órfãos de princípios, de ideias, de sonhos coletivos. Habitante desse deserto, fui irrigada naqueles meses de apuração das matérias por uma espécie de cosmogonia negra.

Não havia fundo falso nos relatos. Mesmo quando a conversa parecia que não ia render, que o personagem se recusava a tocar na ferida, ele mesmo em algum momento não se contentava com frases feitas e obviedades repetidas. Então, ele punha o dedo na dor e nesse instante surgia o personagem verdadeiro.

Uma colega de trabalho voltou recentemente de um curso para jornalistas na Alemanha. Ela ficou impressionada com o modo como professores, alemães, claro, tratavam do holocausto. De um jeito direito, crítico, corajoso. O mais vergonhoso capítulo da história recente não era apenas um detalhe no curso — um recurso cosmético para evitar que as visitas saíssem do país dizendo que eles não tocaram no assunto. Nada disso. Os alemães, aqueles do curso da minha amiga, pegaram o touro pelas unhas e disseram: sim, pisamos na bola e foi muito feio.

Os brasileiros ainda não criamos essa coragem para enfrentar o bicho de frente. E a imprensa, como fiel representante do establishment, do mesmo modo segue se achando filha, neta e bisneta de uma democracia racial. Eu finjo que não vejo, você finge que acredita e seguimos pisando em fundo falso.

Mas, nesses 30 anos de reportagem, foi a primeira vez que escrevi sobre preconceito racial e a primeira vez que fui convidada para falar sobre o tema. É um pequeno exemplo de como há um piso verdadeiro sendo construído, vagarosamente, sobre a terra brasileira.